Pesquisar

Mostrando postagens com marcador Saúde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Saúde. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Menos Médicos

A iminente retirada dos médicoscubanos do Brasil é um duro golpe. Que só não supera a ignorância das pessoas a respeito. Incluindo o Sr. Presidente Bolsonaro.

Médicos cubanos iam atuar onde os brasileiros não desejam
A alegação de Bolsonaro, bem como de muitos que repetem inadvertidamente, é que os médicos cubanos podem ficar. Mas sob outras condições.

Pedir asilo, fazer o exame Revalida, trazer suas famílias.

Mas não é tão simples.

O conceito do Programa Mais Médicos parte do fato de que há lugares no Brasil em que a carência de médicos ocorre porque os cidadãos que se formam em Medicina não desejam viver nessas regiões.

Estamos falando dos sertões e interiores, nas regiões Norte e Nordeste. Estamos falando das periferias em todo o Brasil.

Nesses lugares a dificuldade de fixar médicos é velha conhecida de prefeitos e da população.

O Programa Mais Médicos propõe resolver o problema com duas ações.

A primeira, de efeito em longo prazo, é criar cursos de Medicina já nessas regiões. Assim, formando médicos que já possuem raízes ali, as chances de fixá-los será maior.

A segunda, de efeito imediato, é contratar médicos para este serviço. Brasileiros, preferencialmente. Estrangeiros, se for necessário.

Dada a baixa procura de médicos brasileiros e de outras nacionalidades, as posições acabaram sendo preenchidas por médicos cubanos.

Estes, então, chegam por contrato, e recebem permissão de atuar especificamente nas regiões em que foram alocados.

Dentro do conceito do Prorama Mais Médicos, não é interessante, para o governo brasileiro, que esses médicos façam o exame Revalida.

Por um motivo muito simples.

De posse da aprovação no exame Revalida, e do direito de clinicar em qualquer lugar do Brasil, eles acabariam abandonando as regiões carentes para onde foram designados.

É o que acontece desde sempre: os médicos preferem não morar nos sertões, nos interiores, nas periferias.

Por isso o Programa Mais Médicos não permite que eles façam o Revalida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Vai pro SUS

Eu defendo o SUS como algo imprescindível para os brasileiros.

Não uso muito o SUS porque tenho plano de saúde privado. Mas uso. Aliás, todo brasileiro usa.



"Mas Degas! Que contradição! Se o SUS é tão bom, porque você não usa o SUS?"

A resposta mais polida: "Porque o plano de saúde é melhor PARA MIM na maioria dos casos".

Perceberam o chiste? "PARA MIM". 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Zika, a Microcefalia e as teorias "zica".

É impressionante a quantidade de teorias da conspiração que surgem quando algum assunto se torna notícia. Em tempos de Internet e Redes Sociais, então, isto ganha proporções épicas.

O caso dos bebês com Microcefalia associados a gestantes que contraíram o Zika vírus é o exemplo mais recente e, com certeza, um dos mais emblemáticos.



As teorias são, ninguém pode negar, surpreendentemente criativas: a causa da microcefalia seria um agrotóxico, ou então a vacina contra HPV, ou rubéola. Ou então uma exposição a agentes radioativos... provavelmente muitas outras "teorias" virão a reboque.

Mas é importante não perdermos o foco e mantermos, serenos, o pensamento o mais cético e o mais racional possível.

Uma rápida visita sobre os fatos que se desenrolaram dão mais clareza ao cenário.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

As duas portas do SUS

Octavio Ferraz e Daniel Wang

Original aqui.


A judicialização da saúde está criando um SUS de duas portas: uma para aqueles que vão ao Judiciário e outra para o resto da população

A vida não tem preço!, bradam os defensores da mais recente decisão da Justiça brasileira obrigando o Estado a custear tratamento de saúde no exterior. O caso, como todos os outros nesta seara, é trágico.

Um bebê de cinco meses cuja única esperança, ainda que tênue, é uma operação de altíssimo custo. Poucos hospitais brasileiros têm condições de realizar o complexo procedimento (transplante multivisceral), ainda experimental, mas nenhum deles entende que o paciente se enquadre nos critérios exigidos no Brasil para que a operação tenha mínimas chances de sucesso. A última opção da família é levar o bebê aos Estados Unidos, onde um cirurgião se dispõe a realizar o procedimento. O preço: R$ 2 milhões.

Para muitos, a questão é simples. Como "a vida não tem preço" e a Constituição Federal garante a saúde como um direito fundamental e um dever do Estado, o governo deve gastar o que for necessário para tentar salvá-la. Negando-se a cumprir esta obrigação, cabe ao Judiciário forçá-lo, salvando assim uma vida posta em risco pelo "negligente", "incompetente" e "corrupto" Estado brasileiro. Seria ótimo se o problema fosse tão simples assim.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Depois dos médicos, a hora da gestão na saúde

Luis Nassif

Original aqui.

Está na hora de retomar os conceitos de gestão para a área da saúde.

O país já dispõe de tecnologia de gestão, especialistas, métodos consagrados para aplicar em toda rede pública e ajudar na rede privada.

O primeiro passo é pensar prospectivamente o setor. O Brasil está envelhecendo. Essa mudança demográfica trará impactos expressivos sobre a saúde pública. Há que se desenvolver e deflagrar políticas de prevenção.

O segundo passo é ter uma visão sistêmica do setor.

É evidente que faltam médicos, médicos são essenciais e devem ser procurados onde estiverem disponíveis, seja em Cuba ou na Espanha.

Mas é evidente, igualmente, que os problemas da saúde não se resumem à falta de médicos.

Fila para atendimento no SUS

***

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os médicos, as galinhas e os cubanos



Victor Lisboa


Original aqui.

1. Desordem no galinheiro


Breve cena da vida privada. Pela manhã, escuto no rádio que chegaram os primeiros médicos estrangeiros. No trabalho, colegas conversam a respeito. Um sugere que é estratégia para dar grana ao Fidel. Penso em replicar que as coisas são mais complexas mas, nesse momento, liga minha mãe.

Chorosa, pergunta se eu poderia ajudar a fazer uma denúncia contra um médico que desmarcou sua consulta por duas vezes e, na terceira, deixou-a esperando duas horas até ser atendida. No sábado, soube de uma menina que, atropelada, faleceu após aguardar três horas por atendimento em um hospital.

Breve cena da história. Logo após a Primeira Guerra, um naturalista norueguês chamado Thorlief Schjelderup-Ebbe decidiu passar uns tempos na fazenda de seus pais. Ao cuidar do galinheiro, notou que ali havia hierarquia: algumas galinhas comiam primeiro os grãos despejados em um pote; saciadas, abriam espaço àquelas no segundo nível da hierarquia; por fim, quem estava na base ficava com as sobras. Tudo bem ordeiro.

Ele chamou essa estrutura de “ordem de bicadas” (pecking order).

sábado, 24 de agosto de 2013

Os Cubanos estão vindo!

Caluda! Os cubanos vêm aí


Luciano Martins Costa

Original aqui.

Os jornais foram surpreendidos pela decisão do governo de importar de Cuba 4 mil médicos para ocupar postos em lugares críticos, onde não há serviço público ou particular de saúde. Os primeiros 400 deverão chegar já na próxima semana e serão enviados para cidades ou bairros que não despertaram interesse de profissionais brasileiros ou do exterior na primeira fase das inscrições no programa Mais Médicos, 84% dos quais no Norte e Nordeste.
Médicos cubanos para amenizar uma carência crônica de
profissionais no Brasil

O noticiário dá conta de que, ao todo, 3.511 municípios se inscreveram no programa, o que revela uma demanda de 15.460 vagas. Apenas 15% desse total haviam sido completados até quarta-feira (21/8). Cada médico contratado custará aos cofres públicos R$ 10 mil de salários mensais, mais os custos da mudança e pagamento de moradia e alimentação.
O convênio que permitirá a contratação de médicos cubanos foi feito pelo governo brasileiro com a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), que tem um acordo com governos de vários países, inclusive Cuba, para atender casos de emergência e carência crítica.

Os jornais de quinta-feira (22/8) explicam que 84% dos profissionais que virão de Cuba têm mais de 16 anos de experiência, 30% são pós-graduados, muitos trabalharam em países onde se fala a língua portuguesa, principalmente na África, e todos são especialistas em saúde da família.

Ainda assim, dirigentes de entidades médicas do Brasil fazem declarações à imprensa condenando a iniciativa. Representantes do Conselho Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira dão a volta nas informações oficiais sobre o convênio firmado com a OPAS e declaram que o programa é apenas uma jogada eleitoral. Um desses dirigentes chegou a afirmar que o contrato para trazer médicos cubanos tem “características de trabalho escravo”. No extremo do destempero, o presidente do Conselho Federal de Medicina opinou que a iniciativa do governo “poderá causar um genocídio”.

sábado, 6 de julho de 2013

Medo Médico

Por um lado há uma série de críticas a respeito das condições de trabalho. Os governos tem muito a ver com isso, em todas as esferas. De fato, nem sempre há a quantidade e a qualidade desejada de equipamentos e materiais para se promover uma boa saúde pública. Disso os médicos tem toda a razão em reclamar.

Mas há as ausências nos plantões, as concentrações em áreas ricas a despeito de regiões carentes e, principalmente, a simples constatação de que a Medicina preventiva, que não necessita de grandes investimentos em infra-estrutura. Resolver cada um desses pormenores pode amenizar e muito as mazelas da saúde pública brasileira.

Tudo isso torna razoável a vinda dos estrangeiros. Se os médicos daqui não desejam ir para o interior, morar em cidades pequenas (os dados estão abaixo), e se há um grupo de médicos ávidos por isso, que decisão o governo deve tomar?

Por que o CFM tem medo dos médicos cubanos?


terça-feira, 14 de maio de 2013

Médicos Cubanos no Brasil


Carta do médico Pedro Saraiva, enviada para o jornalista Luis Nassif.

Original aqui.

Por Pedro Saraiva

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil.

Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Alexandre Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

Médicos cubanos atendem 15 milhões de pessoas no Haiti
Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Carta ao Governador


Carta ao Governador do Estado da Bahia.

Jacques Wagner
Caro governador. Muito tenho ouvido de correligionários e comentaristas da imprensa formal (jornais, rádio e televisão) e informal (internet, blogs, redes sociais) sobre vosso "republicanismo".

Não tenho a exata noção do sentido que tais autores empregam ao termo "República" e seus derivados. Todavia, pessoalmente entendo que, “republicanamente”, vossa senhoria foi escolhido por nós, baianos, para cuidar de nossas coisas; da res (coisa) pública. Sois, portanto, um empregado de toda a Bahia, a nobilíssimo serviço dos baianos. Nós, o povo, vos escolhemos para isso. Somos, por assim dizer, vossos patrões.



Assim, caro Governador, mui “republicana”, e mui humildemente também, gostaria de considerar algumas coisas sobre vosso mandato. São decisões, ou falta delas, que, como empregado que sois, vêm deixando vossos patrões, os baianos, um tanto insatisfeitos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Internação Compulsória


Eu também já fui chamado de reacionário porque acho que é melhor um dependente sendo atendido, ainda que à força, que abandonado nas ruas. Desde que, obviamente, ele seja atendido. Não há cabimento criar depósitos de viciados.

A Vida em Primeiro Lugar


Drauzio Varella


Original aqui.


Sou a favor da internação compulsória dos usuários de crack que perambulam pelas ruas feito zumbis. Por defender a adoção dessa medida extrema para casos graves já fui chamado de autoritário e fascista, mas não me importo.

A você que considera essa solução higienista e antidemocrática, comparável àquela dos manicômios medievais, pergunto: se sua filha estivesse maltrapilha e sem banho numa sarjeta da Cracolândia, você a deixaria lá em nome do respeito à cidadania, até que ela decidisse pedir ajuda?

De minha parte, posso adiantar que fosse minha a filha, eu a retiraria dali nem que atada a uma camisa de força.

Para lidar com dependentes de crack, é preciso conhecer a natureza da enfermidade que os aflige. Crack é droga de uso compulsivo causadora de uma doença crônica caracterizada pelo risco de recaídas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A doença da Saúde


Abaixo um relato feito por uma mulher que peregrinou atrás de atendimento médico de urgência.

Trata-se de pessoa esclarecida, com alguma condição financeira, transportada de automóvel. O desfecho poderia ser outro caso fosse uma pessoa menos esclarecida, com menos recursos próprios, e dependendo de transporte público ou ambulâncias.

O caso se passou em Ilhéus, mas poderia ser em qualquer cidade do Brasil.

O Brasil precisa tomar para si, de fato, a missão, com os respectivos encargos decorrentes, de universalizar a saúde com qualidade. Não é fácil, e não é barato. Mas é necessário fazê-lo.

Enquanto isso, vamos apostando na sorte.

RELATO DO QUE ME ACONTECEU NA QUINTA-FEIRA
Socorro Mendonça












terça-feira, 13 de março de 2012

Paciente não é Cliente

Certa vez uma pessoinha muito, muito cara para mim esteve internada. Uma infecção hospitalar a pôs por três semanas num quarto de uma clínica, parte desse tempo entre a vida e a morte. Felizmente, e graças à Ciência, ela acabou sendo salva por antibióticos avançados, bem como pela competência de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas.

A despesa foi bastante alta, o que é irrelevante, posto que não há preço possível para se medir o quanto valeu vê-la recuperada. Não é mensurável em nenhuma moeda, vale mais que qualquer patrimônio.

Desde há muito se observa que os governos são exortados a conter gastos, e aplicar recursos apenas no que é estratégico. Isto conduz a uma conclusão óbvia: precisamos aumentar os gastos com a saúde no Brasil. Se for necessário, que se aumentem os impostos, mas precisamos investir mais.

Muito mais.

Precisamos gastar muito mais dinheiro em equipamentos, medicamentos, instalações e, muito particularmente, com as pessoas: Enfermeiros, Fisioterapeutas, Médicos, Nutricionistas, Odontólogos, Psicólogos. Todos estes profissionais precisam ser muito bem remunerados.

Não há nada mais estratégico do que a saúde e o bem estar das pessoas.

Estas pessoas que trabalham na Saúde merecem uma remuneração à altura da importância e da responsabilidade de suas atribuições, e é justo que busquem isso. O problema é que tipicamente esses profissionais só conseguem alguma remuneração razoável quando se associam a planos de saúde ou conseguem se estabelecer fazendo atendimentos particulares.

Inegavelmente merecida, a remuneração jamais deveria vir do paciente
E é aí que está um grande e perigosíssimo equívoco.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um desabafo sobre o SUS

Não tenho sensibilidade o suficiente para me comover com facilidade. Mas o texto abaixo é comovente. E esclarecedor. E deixa as pessoas envergonhadas. As que tem Vergonha, evidentemente. O original pode ser acessado aqui.

----------------------------------------------
Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto
by Nina Crintzs

"Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.


Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.


Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, 'estímulos' elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.


O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um 'mas' aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.


O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.


A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu 'eu não sei' mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz 'eu não sei, vou pesquisar'. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.


O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. 'Custaria' porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.


O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.


Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.


Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, 'humor'.


Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não."

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A privatização de Leitos em SP

Está lá no Estadão (e no estadao.com) para quem quiser conferir. E reproduzido abaixo. O original pode ser acessado aqui. Justiça concede liminar barrando leitos concedidos a planos privados no SUS.

A medida, provavelmente, ainda acabará entrando em vigor. É uma Liminar, e os governos são experts em derrubar liinares quando é de seu interesse.

Não é fácil entender a justificativa para se ceder 25% dos leitos em hospitais públicos para pacientes de plano de saúde privados. Mas é fácil explicar. Principalmente se consideramos o estado de São Paulo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Os Bombeiros do Rio


Este Logotipo é de uma campanha no Facebook. Eu tomei uma liberdade e o trouxe para cá. Porque é hora de denunciar mais, e cobrar mais. Como bem colocou aquela indomável professora Potiguar: não lhes peça mais para ter paciência.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Também fui "pego"

Estou meio fora do ar nestes dias. É que, no embalo das manifestações contra Hosny Mubarak no Cairo, um outro egípcio, chamado Aedes, resolveu me pregar uma peça.



Hoje estou somando mais um caso às estatísticas de Dengue em Ilhéus.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os filhos que cuidam dos pais

Essa matéria assustadora eu peguei no Blog do Nassif (leiam aqui).

Não é fácil entender como um país rico e socialmente avançado como a Grã Bretanha permite esse estado de coisas. Mesmo nos emergentes e em boa parte do terceiro mundo isso seria absurdo.

Um crime contra a Infância.

Os filhos que cuidam dos pais

Por MiriamL

Da BBC Brasil

Filha que cuida da mãe desde os seis anos ilustra realidade que preocupa britânicos

A situação de uma adolescente britânica de 12 anos que cuida da mãe desde os seis anos ilustra uma realidade que vem se tornando mais comum na Grã-Bretanha e gera preocupação no país.

A mãe da Victoria, Gail, perdeu a visão após ser submetida a uma operação para remover um tumor do seu cérebro. O pai é caminhoneiro e passa longos períodos fora de casa, deixando a mulher aos cuidados da filha.

Victoria ajuda a mãe a se lavar, se vestir e ir ao banheiro. Ela também a alimenta por meio de um tubo inserido no seu abdômen e prepara um complicado coquetel de medicamentos que também precisa ser injetado por meio de um tubo na mãe, quatro vezes ao dia.

"Já sei as doses de cor, então essa parte está tranquila. Eu olho para a minha mãe e sei que isso é o que faz que ela fique viva", diz Victoria, enquanto prepara os medicamentos para a mãe.

"São vários remédios que ela precisa tomar. Você tem de prepará-los com cuidado, amassar tudo, tomar cuidado para que eles possam passar pelo tubo".

Culpa

Gail sabe que cuidar de um adulto é uma responsabilidade imensa, um peso muito grande sobre os ombros de uma jovem de 12 anos.

"Me sinto culpada por fazer com que ela cumpra essas tarefas. Mas para ser honesta, se pessoas de fora viessem me dar assistência, seria uma pessoa diferente entrando pela porta a cada dia", diz Gail.

"Eu gostaria de um pouco de ajuda em tudo", diz Victoria. "Gostaria que viessem nos ajudar com coisas básicas, como levar minha mãe ao banheiro, por exemplo. Dos medicamentos, nós poderíamos cuidar."

Em Dundee, uma cidade na Escócia, a menina Leigh, de oito anos, tem uma realidade parecida com a de Victoria.

Leigh precisa cuidar da mãe, Kirsty, que sofre de transtorno bipolar. A filha fazer companhia constantemente à mãe, dar a ela remédios e, além disso, tem que fazer tarefas domésticas e ir sozinha para a escola.

A menina acaba tendo apenas duas horas por dia para si mesma, das 17h às 19h, quando vai a um centro local para crianças que cuidam de parentes.

Embora admita que precisa do apoio da filha, Kirsty reconhece que Leigh precisa de ajuda.

"O grupo (de apoio, no centro local) dá a elas (as crianças que cuidam de parentes) a chance de serem crianças", disse. "Isso também as faz perceberem que não estão sozinhas."

Pesquisa

Nesta semana, a BBC divulgou uma pesquisa que indica que o número de adolescentes e crianças que cuidam de pais ou parentes pode ser quatro vezes maior do que calcula o governo britânico.

Ao todo, 4.029 crianças em idade escolar foram entrevistadas. Uma em cada 12 disse ser responsável por dar assistência - como banhar, vestir ou alimentar - a algum membro da família.

Se a pesquisa - baseada em um questionário elaborado por acadêmicos da Universidade de Nottingham University, na Inglaterra - for um reflexo da Grã-Bretanha como um todo, pode haver 700 mil crianças nessa situação no país.

O último censo britânico, feito em 2001, identificou apenas 175 mil delas.

Entidades de defesa dos direitos da criança dizem que o governo está economizando milhões de libras às custas do trabalho dessas crianças, prejudicando a sua infância e destruindo seu futuro.

A secretária para as Crianças da Inglaterra, Sarah Teather, disse que a pesquisa mostra a realidade vivida por essas crianças.

"É chocante perceber que elas não recebem nem apoio, nem o reconhecimento que merecem" disse Teather.

A secretária anunciou que o governo deve lançar um programa direcionado ao grupo no final do ano.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cold Turkey

Drogas são mesmo um grande mal das sociedades modernas. Escravizam, literalmente, os dependentes, e tornam reféns amigos e familiares.

Mas não se pode tratar todas da mesma forma. Há drogas mais e menos virulentas, com conseqüências mais ou meno graves sobre os dependentes. Álcool é um problema. Crack é um problema maior.

Um jovem viciado em Heroína descreveu, poeticamente e no pesado ritmo do Rock, o seu desespero pessoal para se livrar da dependência da heroína. O processo é longo e doloroso, e foi até batizado: "Cold Turkey". Algo como "O frio da Turquia", em tradução livre.

Li isto no blog do Nassif (aqui).

Seu nome? John Lennon.




A letra, com uma tradução pessoal, segue abaixo.


Cold Turkey
John Lennon


Temperature’s rising
(A temperatura sobe)
Fever is high
(A febre é alta)
Can’t see no future
(Não vejo nenhum futuro)
Can’t see no sky
(Não vejo nenhum céu)
My feet are so heavy
(Meus pés estão tão pesados)
So is my head
(Minha cabeça também)
I wish I was a baby
(Eu queria ser um bebê)
I wish I was dead
(Eu queria estar morto)
Cold turkey has got me on the run
("Cold turkey" não me deixou escapar)
My body is aching
(Meu corpo está doendo)
Goose-pimple bone
(Pústulas nos ossos)
Can’t see no body
(Não vejo nenhum corpo)
Leave me alone
(Deixem-me em paz)
My eyes are wide open
(Meus olhos estão muito abertos)
Can’t get to sleep
(Não consigo dormir)
One thing I’m sure of
(Estou certo de que)
I’m in at the deep freeze
(Estou no fundo de um congelador)
Cold turkey has got me on the run
("Cold turkey" não me deixou escapar)
Cold turkey has got me on the run
("Cold turkey" não me deixou escapar)
Thirty-six hours
(Trinta e seis horas)
Rolling in pain
(Rolando de dor)
Praying to someone
(Rezando para alguém)
Free me again
(Devolver minha liberdade)
Oh I’ll be a good boy
(Oh, eu serei um bom garoto)
Please make me well
(Por favor façam-me ficar bom)
I promise you anything
(Eu prometo qualquer coisa)
Get me out of this hell
(Tirem-me deste inferno)
Cold turkey has got me on the run
("Cold turkey" não me deixou escapar)
Oh, oh, oh, oh

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Acertos e Erros

Uma vez eu disse que a administração do Prefeito Newton Lima, apesar de ser uma decepção, tendo iludido a cidade com uns meses de gestão aprovável (embora aquém do que a cidade precisa e pode), não pode ser tratada como um estrondoso fracasso.

Digo isso com liberdade, pois pela minha vontade não seria ele o prefeito da cidade. Eu apenas curvei-me à decisão da maioria, como mandam os princípios democráticos.

Valderico Reis foi a maior estupidez já perpetrada por eleitores de uma cidade. Newton Lima, diferente, foi, para muitos, um erro. Talvez um grande erro. Mas longe de ser uma administração inteiramente nociva para o município, como foi seu antecessor.

E a administração atual tem seus acertos e seus erros.

Por exemplo, conforme se lê no Blog do Gusmão (aqui), a queda nos índices de infestação do mosquito da Dengue que foi conseguida entre 2005 e 2007 é notável. Durante o período, os resultados mostraram que o trabalho acabou sendo mais eficaz.

As áreas em rosa na figura abaixo mostram os locais em que o risco de infecção era alto em 2005. Amarelo indica risco médio e verde indica risco baixo.



E em 2007 a melhoria já era sensível.




Mas em Novembro de 2009 já há um recrudescimento da qualidade do trabalho, e o conseqüente aumento do risco de infestação.



Obviamente algo muito errado está havendo na gestão do combate à dengue no município. E independente de acusações a gestores específicos, a responsabilidade por essa involução é devida à prefeitura Municipal.

Ilhéus pode acabar sendo um dos campeões nacionais de Dengue no próximo verão. E o Sr. Newton Lima tem muito a ver com isso.

Mas nem tudo são espinhos. Há uma denúncia no Jornal Bahia OnLine (leia aqui), dando conta de que um secretário do município está encontrando irregularidades em pagamentos de contas de energia, lesando os cofres municipais.

Pelo que a investigação vem dando conta, parece que há uma grande quantidade de imóveis, que não pertencem nem estão em usufruto da prefeitura municipal, cujas contas de energia são pagas pelo município.

Ao que parece, todos esses imóveis irregulares estão sendo devidamente identificados, e a sangria dos cofres está sendo estancada.

Independente de quem pessoalmente promove essa ação, cabe parabenizar a administração do Sr. Newton pela investigação e pelas providências.

Há muitos problemas na administração atual da Prefeitura de Ilhéus. Muitos erros, muitas coisas mal explicadas, e até inexplicadas. Mas não se pode deixar de reconhecer também os seus méritos, pois eles existem, ainda que tímidos. Como na gestão de qualquer prefeito.