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terça-feira, 10 de abril de 2018

Sobre Gatos e Gatunos

Minha vida quase inteira eu vivi em companhia de animais.

Gatos, muitas vezes.



Acho eles uns bichos muito interessantes. Se adaptam, caçam, fazem manha, fingem. São muito mais parecidos com nós, humanos, do que os cachorros, por exemplo (talvez por isso eu goste de gatos mas prefiro cachorros).

quinta-feira, 28 de julho de 2016

As eleições de 2018 e o "risco Lula"



por Marcos Villas-Bôas
Original aqui.

Como nos últimos 13 anos, o futuro do Brasil e da esquerda está nas mãos de Lula, agora mais do que nunca. O país vive um grave momento de inflexão e, até o final de agosto, decidirá o impeachment da Presidente Dilma Rousseff, o segundo em menos de 30 anos.



Os próximos 35 dias serão decisivos para o Brasil, que continuará em crise até 2019 se um novo Presidente, mais preparado e que não tenha relação com as investigações em curso, não assumir antes disso.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

No day after, Lula

Wagner Iglecias
Original aqui.

Vamos lá, a mais um exercício de futurologia: se eventualmente aprovado o processo de impeachment na Câmara no próximo domingo deverá recomeçar no minuto seguinte a caçada ao ex-presidente Lula. Seja para cassar seus direitos políticos ou para efetivamente recolhe-lo a algum presídio.



Se para uma parcela importante da sociedade, formada pelos grandes meios de comunicação (e a classe média que serve de caixa de ressonância para suas teses e interesses), pelo mercado financeiro e por instituições patronais como Fiesp, Firjan e CNI, o governo Dilma não tem mais condições políticas de continuar, para outra parcela importante da sociedade, formada pelas esquerdas, pelos movimentos sociais, pela intelectualidade e pela mídia independente o governo Temer não reúne condições políticas, éticas e jurídicas sequer para começar.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A Jararaca não morreu. Ela vai viver?

"Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve"

Esta frase emblemática do Presidente Lula vai para a História.



Aliás, é isto o que estamos vivendo neste momento: a História sendo escrita. Daqui a muitas e muitas décadas os relatos deste momento ocuparão parte das páginas mais importantes dos livros de História.

O desfecho da operação Lava-Jato pareceu ter sido finalmente alcançado na sexta-feira, dia 04 de Março de 2016. A imagem da Polícia Federal e de procuradores de Justiça cercando  o Presidente de todas as maneiras foi muito forte. Residência, Instituto, e nem mesmo um depósito foram poupados.

Por um bom tempo pareceu que o objetivo - sim, ninguém que tenha qualquer senso crítico ainda duvida do verdadeiro objetivo da Operação Lava-Jato, que é devolver o poder ao grupo que não o conquista pelo voto desde o século passado - estava alcançado. Excluído Lula do jogo de Xadrez, é só deixar Dilma continuar a sangrar até o desfecho final.

Mas não aconteceu.

domingo, 6 de março de 2016

A Lava Jato atravessou o Rubicão

Luis Nassif
Original aqui.


A Lava Jato atravessou definitivamente o Rubicão, com a história da condução coercitiva de Lula para prestar depoimento.


A nota de Moro – transferindo a responsabilidade do pedido ao Ministério Público Federal, conclamando por tolerância e compreensão “em relação ao outro lado” mostra o risco de se colocar a estabilidade política do país na dependência de um grupo de investigadores provincianos, conduzidos pelas cenouras do Jornal Nacional.

Mas fornece elementos que levam a um desfecho imprevisível para nosso jogo de xadrez.

Peça 1 - A estratégia dos vazamentos

sábado, 4 de abril de 2015

Erros de Dilma, Lula e PT ameaçam projeto político

Ex-presidente já se preocupa em defender legado político

Kennedy Alencar
São Paulo
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O ex-presidente Lula tem consciência de que o fracasso do governo Dilma tende a inviabilizar a sua eventual candidatura à Presidência em 2018. Ele também está preocupado com o crescente desgaste do PT, que virou uma espécie de “Geni”. Razão: no cada vez mais provável cenário de alternância de poder daqui a quatro anos, sua herança política poderá ser desconstruída.

Diante da dura realidade, a única saída pública que Lula encontrou foi defender o governo Dilma, apontar alguns erros da sucessora e criticar os opositores e a imprensa. Esse roteiro foi seguido à risca, na terça-feira à noite, num evento partidário em São Paulo: em meio a alfinetadas nos tucanos e na mídia, o ex-presidente fez uma defesa enfática do PT, do governo e de Dilma Rousseff.

No entanto, convém lembrar que a oposição e a imprensa não inventaram o escândalo da Lava Jato nem foram responsáveis pela política econômica desastrada do primeiro mandato de Dilma.



O que Lula está fazendo deve ser entendido no contexto do debate político para tentar salvar o seu legado na Presidência e impedir que o PT definhe como uma das principais forças partidárias do Brasil. Carismático, está cumprindo o seu papel de líder inconteste de um campo de forças. É a política como ela é.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sobrenatural de Almeida e a Bala de Prata do PT


O Gênio Nelson Rodrigues criou um personagem que ficou famoso ao ser invocado quando gols improváveis, resultados impensáveis ou zebras surpreendentes acometiam os resultados do Futebol: Sobrenatural de Almeida.

Sobrenatural de Almeida aparecia sempre de surpresa, e misturava tudo. Tornava partidas ganhas em perdidas, dava títulos a equipes menores, invertia a lógica.

Pois bem: Sobrenatural de Almeida veio às eleições de 2014. O pleito parecia muito bem decidido, com a velha polarização entre PT e PSDB, acabando com a quarta vitória seguida daquele sobre este.

Parecia.

Sobrenatural de Almeida derrubou um avião, matando tragicamente um dos candidatos. De relevância razoável, diga-se de passagem, mas a quem se legava um papel coadjuvante. E isso embaralhou as coisas. Colocou uma peça nova no tabuleiro: Marina Silva. Com este advento, tudo ficou muito mais difícil para o PT e para o PSDB.

Marina, que 4 anos atrás era referida como a “terceira via”, agora não se posa mais assim. Ela vem turbinada pela votação das eleições passadas, mais o próprio cenário político. Não é mais a “terceira”. Alguém será passado para trás.

Aécio, Dilma e Marina: as coisas mudaram

É como se, num grande prêmio de Fórmula 1, um concorrente, ao parar nos boxes, pudesse trocar um modesto Force Índia por uma possante Mercedes. Vem com muito mais ação, galgando posições. Este é o PSB com Marina.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Uma década vencendo a fome

Luís Inácio Lula da Silva

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O Brasil comemorou recentemente o 10 º aniversário do Bolsa Família, um modelo para muitos programas recentes de distribuição de renda ao redor do mundo.

Por meio do Bolsa Família, 14 milhões de famílias, ou 50 milhões de pessoas – um quarto da população do Brasil – recebem uma renda mensal desde que mantenham as crianças na escola e que dêem a elas assistência médica, incluindo todas as vacinações regulares. Mais de 90% dos pagamentos são feitos para as mães.



Nesses dez anos desde o início do programa, aproveitamento escolar das crianças melhorou, as taxas de mortalidade infantil caíram e 36 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza.

Os números são eloquentes, mas não bastam para expressar a transformação na vida de cada um.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os impasses do Lulismo

Uma das melhores análises que já li. Oposição madura, sem factoides de Internet, sem montagens grosseiras, sem ódio a programas sociais ou aos seus beneficiários.

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Conquistas do Lulismo não resolvem problemas estruturais como a educação
O governo Dilma alcançou a metade de seu mandato. Eis um bom momento para colocar questões a respeito dos rumos que o Brasil tomou desde o primeiro governo Lula. Rumos próprios à mais longa experiência de continuidade programática dos períodos democráticos.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os paralelos entre Vargas e Lula


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Esses tempos de Comissão da Verdade – tentando levantar os véus do período militar -, mais a extrema turbulência que cercou o julgamento do chamado “mensalão” suscitaram comparações entre os períodos Vargas-Jango e Lula-Dilma.




Vale a pena uma identificação mais clara de semelhanças e diferenças.

***

Ambos os períodos foram de intensa inclusão social, no período Vargas a inclusão das novas classes trabalhadoras, em polos industriais localizados e, em parte, na zona rural nordestina, em torno de sindicatos e organizações de camponeses; no período Lula, de forma disseminada pelo país.

Esse era o jogo: Vargas e Lula consolidando projetos nacional-populares; a oposição ancorada em dois discursos: a anticorrupção e um inacreditável anticomunismo, mesmo após o fim do comunismo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Falar lá, para ser ouvida cá


Original aqui.

Dilma parece ter descoberto que só vai conseguir mesmo ser ouvida direito na mídia internacional

Há algo de muito errado ou na presidenta Dilma ou na mídia brasileira quando, para dar uma entrevista relevante, ela opta por publicações estrangeiras, como foi o caso, agora, do Le Monde.
Dilma e Hollande: a imprensa internacional é um interlocutor mais honesto?
Faça sua escolha.

Imaginemos que Dilma considerasse a mídia brasileira para falar o que pensa sobre a questão da corrupção e do cerco a Lula.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nos tempos do Engavetador


Ou "Refrescando (a memória de) Fernando Henrique Cardoso".

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O que é mais vergonhoso para um presidente da República? Ter as ações de seu governo investigadas e os responsáveis, punidos, ou varrer tudo para debaixo do tapete? Eis a diferença entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva: durante o governo do primeiro, nenhuma denúncia –e foram muitas– foi investigada; ninguém foi punido. O segundo está tendo que cortar agora na própria carne por seus erros e de seu governo simplesmente porque deu autonomia aos órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o Ministério Público. O que é mais republicano? Descobrir malfeitos ou encobri-los?

FHC, durante os oito anos de mandato, foi beneficiado, sim, ao contrário de Lula, pelo olhar condescendente dos órgãos públicos investigadores. Seu procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, era conhecido pela alcunha vexaminosa de “engavetador-geral da República”. O caso mais gritante de corrupção do governo FHC, em tudo similar ao “mensalão”, a compra de votos para a emenda da reeleição, nunca chegou ao Supremo Tribunal Federal nem seus responsáveis foram punidos porque o procurador-geral simplesmente arquivou o caso. Arquivou! Um escândalo.
Geraldo Brindeiro: apelidado de "Engavetador Geral" da República.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

As camisas do PT


O cenário político que se desenha para o Brasil é um tanto incômodo: numa democracia, o pior que pode haver é a falta de oposição.

A iminente derrocada de José Serra em São Paulo vai trazer, ao PSDB, mais danos do que a princípio se analisa. É a pá de cal numa oposição que jamais, desde que Lula assumiu a presidência em 2002, conseguiu encontrar um discurso coerente.
A difícil situação do PSDB

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Boas Verdades


Discurso do senador Roberto Requião. Diferenças à parte, vale à pena ouvir: corajoso, direto e muito duro. E, naturalmente, ignorado pela grande mídia.

Pessoalmente começo a me preocupar com o clima que vivemos hoje na política brasileira, e suas semelhanças com o que se via pouco antes do golpe de 1964.


 "Não costumo assinar manifestos, abaixo-assinados ou participar de correntes. Mas quero registrar aqui minha solidariedade a Luís Inácio Lula da Silva, por duas vezes presidente do Brasil. 

Diante de tanto oportunismo, irresponsabilidade, ciumeira e ressentimento não é possível que se cale, que se furte a um gesto de companheirismo em direção ao presidente Lula. Sim, de companheirismo, que pouco e me dá o deboche do sociólogo.

sábado, 11 de agosto de 2012

De volta a Madrasta Má

Um dos maiores cabos eleitorais da eleição de Lula em 2002 foi o funcionalismo público federal. Com efeito, o seu antecessor, o presidente Fernando Henrique Cardoso, promoveu ao funcionalismo um período de quase uma década sem que houvesse qualquer reajuste substancial nos vencimentos dos servidores federais.

Foram oito anos sem aumento. E o PT capitalizou isso a seu favor em 2002 e venceu as eleições. E nos primeiros (não exatamente no primeiro) anos do governo Lula deu-se início a pálida uma recuperação das perdas salariais, invertendo a lógica anterior de sucateamento do estado público brasileiro, a começar pelo funcionalismo.

Mas a relação de madrasta má do governo com o funcionalismo está de volta, conforme se vê na figura abaixo, que foi publicada n'O Estadão.

Evolução dos salários do Funcionalismo X Inflação entre 2003 e 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pensar (livremente) o Brasil

Mais um acerto de Carta Capital, o veículo que resta como exemplo de pluralidade e ética na grande mídia. Ali é onde se encontra a opinião livre, favorável e desfavorável, mas sempre muito abalizada e bem discutida.

A coluna "Pensar (livremente) o Brasil" será conduzida por Ciro Gomes, que, naturalmente (e sem nenhuma intenção de se negar ou esconder), a usará como plataforma política.

Mas pelo menos esta primeira, ainda que pesem algumas afirmações indemonstradas e algumas conclusões inconsistentes, ficou boa. Pode ser lida abaixo (o original está aqui).

Ciro Gomes defende que se mantenha a
tática, os valores e o legado de Lula
ao governo do Brasil
"Neste espaço tentarei desenvolver uma compreensão holista do Brasil, tal qual o vejo. Passo por passo, submeterei meu entendimento político e econômico de nosso Pais à inteligência dos que me derem sua paciente leitura. Por momentos refletirei sobre questões estruturais. Em outros, chamarei a conjuntura a demonstrar o que penso.



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um desabafo sobre o SUS

Não tenho sensibilidade o suficiente para me comover com facilidade. Mas o texto abaixo é comovente. E esclarecedor. E deixa as pessoas envergonhadas. As que tem Vergonha, evidentemente. O original pode ser acessado aqui.

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Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto
by Nina Crintzs

"Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.


Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.


Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, 'estímulos' elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.


O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um 'mas' aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.


O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.


A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu 'eu não sei' mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz 'eu não sei, vou pesquisar'. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.


O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. 'Custaria' porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.


O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.


Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.


Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, 'humor'.


Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não."

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O argumento que morreu

Durante os anos 90, particularmente entre 1998 e 2000, circulou fortemente nos meios políticos e editoriais o discurso de que, para aumentar a formalização, só com diminuição da carga tributária e de direitos dos empregados.

Chamaram isso de “flexibilização das leis trabalhistas”.

Que, na prática, resultaria em perda de direitos por parte dos trabalhadores.

De acordo com o discurso da época, essa era a única forma de o Brasil voltar a gerar empregos formais. Ou era isso, a “flexibilização”, ou seria o desemprego crescente e desgovernado que vivíamos naqueles anos.

Os trabalhadores estavam sendo empurrados para uma verdadeira sinuca de bico. Ou mantinham a bandeira dos direitos trabalhistas, da CLT, ou partiam para a linha pragmática, para a “negociação” com os patrões, verdadeiramente para a concessão de parte de seus direitos.

Na pauta da “flexibilização” estavam as férias, o 13º salário, o FGTS, a aposentadoria. As perspectivas eram deveras pessimistas.

Mas os anos foram passando. E veio o último governo, mudando muito da orientação vigente.

Nestes últimos 8 anos não houve nenhuma flexibilização. Férias, 13º salário, FGTS, tudo continuou sendo mantido pela legislação, e vigiado pela Justiça, pelo Governo e pelos sindicatos.

Mas algo, sem dúvidas, mudou. Porque apesar de todas essas garantias serem mantidas, o nível de emprego formal cresceu no Brasil. Cresceu muito, aliás. Segundo dados do IBGE (leia aqui) “o número de trabalhadores com carteira assinada aumentou 38,7%, enquanto população ocupada cresceu 18,9%”.

Nos anos do governo Lula o número de postos de trabalho cresceu quase 20%. Mais ainda, o número de vagas com carteira assinada cresceu mais que o dobro disso. A conclusão? Os trabalhadores não precisavam pagar por isso com seus direitos, afinal.

Isso tudo esvaziou o discurso da flexibilização. Hoje não há mais quem, em sã consciência, proponha isso. Porque os resultados da economia provaram que a flexibilização, que na verdade resultaria na perda de direitos por parte dos trabalhadores, é absolutamente desnecessária. Puro casuísmo. O Brasil cresceu, gerou empregos, a maioria com carteira assinada. E os trabalhadores não precisaram sacrificar seus direitos por isso. Que bom que foi assim.

Este argumento, felizmente, está morto e enterrado.