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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Dialética

Há algum tempo eu tenho contato, nos mais diversos segmentos científicos, com a expressão “Dialética”. Inicialmente eu tentei que me explicassem bem, porque para mim parecia um mistério. Mas as explicações foram todas insuficientes para meu intelecto, provavelmente limitado, que não conseguia alcançar a totalidade do conceito.

Ou então quem explicava para mim também não sabia, isto é sempre uma possibilidade!

Mas eis que muitos anos, debates e leituras depois, cá estou eu falando sobre a Dialética. Não pretendo fazer aqui uma aula sobre o assunto, quem sou eu, “pobre positivista“ (às vezes me tratam assim), nem tentando discorrer como um professor sobre isso. Pretendo, antes, ser um guia, e mostrar alguns dos conceitos que eu supostamente apreendi do assunto, mas sob a ótica de um estudante das ciências exatas. Mais que tentar explicar a Dialética, pretendo mostrá-la sob o ponto de vista de alguém que não é específico das ciências humanas.

Em primeiro lugar é necessário esclarecer que a Dialética é uma maneira de pensar, de compreender fenômenos. E naturalmente não é a única. Além disso, há um pressuposto básico de que estes fenômenos estão em constante transformação. Não há sentido em usar a Dialética para fenômenos considerados estáticos.

Para esclarecer um pouco mais, e dando algum espaço à ideologia, vou exemplificar com a Dialética Marxista. O objeto do estudo, em humanidades, é o homem. Mas, num modelo simplificado, como o que é usado em ciências humanas, não há sentido (segundo Marx e sua dialética) falar do homem. Porque o homem não se transforma. Caso essa consideração sobre o homem fosse feita num contexto biológico, considerando os aspectos evolucionários, isso teria que ser revisto. Mas não é o caso: para os humanistas, o homem, biologicamente, não muda.

Dialeticamente, portanto, não se poderia falar do homem. Mas se poderia falar dos papéis que o homem representa ao longo da História, pois estes sim se transformam. Por exemplo, na Idade Média, um homem poderia ser Senhor, ou Servo. No Capitalismo, o homem é Capitalista ou Proletário. Isso foi uma das coisas que Marx discutiu. Para ele, é a atuação dos homens nos papéis que representa que impõe dinamismo às sociedades.

Esse dinamismo se dá pela eterna disputa entre a Tese e a Antítese, que juntas formam a Síntese. Para explicar esses três conceitos, ainda usando Marx, tomarei o sistema Capitalista como base.

Este é definido como a Síntese do Capital (Tese) e do Trabalho (Antítese). Um não existe sem o outro no sistema Capitalista, mas ao mesmo tempo os dois não existem sem conflitos. E é do conflito que surge a dinâmica, as transformações que ocorrem ao longo da história.

O Modo de Produção Asiático e o Feudalismo, por exemplo, foram transformados pelo conflito intrínseco e dialético entre a Tese e a Antítese. Esse conflito acaba, em algum momento, levando o sistema a um estado em que o papel desempenhado pelos homens começa a se transformar, e isso é incompatível com a estrutura do próprio sistema: ele rui, ao mesmo tempo que começa a gestar um novo. Quando surge a classe Burguesa, por exemplo, o Sistema Feudal não se vê mais viável, já que o papel da Burguesia não é sustentável dentro dele, e acaba forçando o sistema a ruir. Com a revolução industrial, surge o Capitalismo, que absorve a Burguesia (Capital) e os operários (Trabalho) se pensamos essas relações considerando o modelo dialético. Nesse caso, necessariamente a natureza dinâmica das relações sociais permanece, e os conflitos também.

Essa maneira muito peculiar de entender os fenômenos científicos é muito útil para as Ciências Humanas, porque permite uma série de simplificações para tornar tratável certos domínios que, não fosse assim, dificilmente poderiam sê-lo. Por exemplo, do estudo do homem sobre a sua própria natureza surgem teorias científicas. As teorias de Marx, por hipótese. Mas ao mesmo tempo em que há uma teoria sobre a sociedade, que é produzida pelo homem, há também um homem que é produzido pela Sociedade (lembrem-se de que os aspectos biológicos são desprezados nesses estudos) o que invalidaria a própria teoria, já que não é possível saber se a teoria é produto do homem ou da própria sociedade em que ele está imerso.

Isso, matematicamente, remete ao teorema de Göedel. Os sistemas não podem ser ao mesmo tempo completos e consistentes. Nesse caso, o estudo do homem pelo próprio homem é uma inconsistência.

Dialeticamente essa inconsistência precisaria ser inserida nas próprias teorias, forçando-as a lidar com as contradições inerentes a ela mesma. Mas normalmente é necessário se romper com esse dilema, e nesse caso não há outra saída: é necessário simplificar o modelo, rompendo um pouco com o Pensamento Dialético. Não se deve tomar isso como uma crítica às ciências humanas; devo lembrar que se fazem modelos simplificados em todas as ciências. No caso específico das Humanidades, por um instante assume-se que o homem é um observador externo, de forma que ele tenha a liberdade de teorizar sobre a sociedade como um químico teoriza sobre reações moleculares. Isso permite "validar" teorias. Mas de toda forma é interessante como, se levado ao extremo, o pensamento dialético pode contestar até a si mesmo.

O interessante desse modelo de pensamento, que guia muitas teorias em Ciências Humanas, é que ele não precisa ficar restrito a elas. Por exemplo, uma reação química é precisamente a transformação de um sistema gerada pela interação dos reagentes com reatores, que também se transformam. Um ecossistema evolui e é superado por outros ecossistemas porque os seres vivos e não-vivos interagem modificando-o e modificando-se. Esses fenômenos guardam uma forte analogia com a Luta de Classes e, portanto, com a própria Dialética.

Também em Ciência da Computação, imaginando um programa executando numa máquina de Turing, em que a fita impõe modificações no estado da máquina, que por sua vez impõe modificações na fita, até que o sistema seja superado – e o programa encerra sua execução.

O pensamento Dialético é perfeitamente válido nesses casos. Mas parece ser pouco útil porque normalmente o interesse é no resultado final das transformações, não no mecanismo intrínseco que impulsiona o processo. Além disso, outorga-se aos cientistas a prerrogativa de olhar o sistema externamente, como na verdade somente Deus ou os ET's poderia fazer com as sociedades humanas.

4 comentários:

  1. É isso, Degas. Tem umas pessoas que falam de Dialética como se fossem coisa de outro mundo, mas não tem mesmo muita noção do que se trata. Sua explicação tornou o assunto fácil e coerente. Parabéns!

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  2. Oi Degas, vc nao deve lembrar mais duas vezes fiz um pedido simples e vc nao atendeu. Tudo bem, esperava maior respeito pois leio diariamente as suas colocações.
    Com relação aos donos da BAMIM.
    Tudo bem, se nao quiser colocar vou fazer outro pedido. Vc poderia postar os resultados das audiencias publicas de Caitité e região?
    e claro gostaria de saber a sua opinião

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  3. Cara... eu já respondi. Várias vezes. Aqui e no site do Rabat. E já indiquei onde você onde encontrar essas e outras respostas por si mesmo. Consulte http://www.bamin.com.br/.
    Não vejo a mínima relevância de suas perguntas... mas suas respostas estão todas ali.
    Qual o seu nome? Porque insiste em postar como anônimo?

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  4. Caro Degas. Note que esse cidadão anônimo aí postou seu comentário no dia 31/07. Portanto antes das reportagens sobre as audiências, mas ele já estava sabendo delas.
    Assim dá prá saber que com certeza essa pessoa possui informações privilegiadas, sendo no minimo participante de alguma dessas pseudo-organismos que são contra o Porto Sul.

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